VATAPÁ-LIGHT – PRATO SERVIDO NO "GRANDE" JANTAR DA CIDADE DE MENTIRA
Os prazeres da culinária ou da "boa mesa" há muito estão presentes na literatura brasileira contribuindo para contar um pouco da história da formação do "corpo cultural" do país.
Em 1998, no número 36 da Revista Travessia, são reunidos vários textos com o objetivo de "refletir algumas texturas culinárias das passagens históricas e dos processos políticos, nas dobras modernas de um corpo enquanto território cultural significante" (CULINÁRIA de texturas:..., 1998, p. 7). No número 29 da Revista CULT, José Guilherme Rodrigues Ferreira, Josimar Melo e Sérgio Mauro apresentam "Livros sobre cultura e gastronomia que são encontro entre saber e sabor".
Um olhar sobre o passado: os anos de 1924 e 1944, mostra dois momentos que foram escolhidos para a realização deste trabalho. No primeiro, Mário de Andrade escreve numa carta à Câmara Cascudo[1], "Meu Deus! Tem momentos em que eu tenho fome, mais positivamente fome física, fome estomacal de Brasil agora. Até que enfim sinto que é dele que me alimento!". No segundo, começam as publicações dos artigos que formam o corpo d'O Banquete, na Folha da Manhã.
A palavra banquete significa "jantar coletivo, refeição formal e solene" (Aurélio FERREIRA, 1985, p. 57). Momento de nutrição do corpo físico, O Banquete de Mário de Andrade é, também, uma amostra do corpo cultural brasileiro. Este, é apresentado através dos pratos, das bebidas, e das discussões entre os personagens Siomara Ponga, Félix de Cima, Sarah Light, Janjão e Pastor Fido.
O vatapá, prato servido como entrada, identifica-se com Janjão e com a cultura brasileira. Janjão é"mestiço de apenas 400 anos" (ANDRADE, 1977, p. 45). O vatapá – prato baiano ou "comida de negros" (ANDRADE, 1977, p. 120) – representa a culinária nacional, ultrapassa "as fronteiras nacionais"e torna-se "elemento de propaganda" extraordinário da cozinha brasileira[2].
Prato dos fortes de espírito, o vatapá é um "prato violento" que traz na mistura de seus ingredientes muitas das raízes fundacionais da nação. Da junção de várias etnias formou-se um corpo único. A violência do prato "é menos questão de brutalidade que de saúde espiritual" (ANDRADE, 1977, p. 120), é digno da saúde dos brasileiros. Félix de Cima explica a tempestuosidade do vatapá, diminuída pelos efeitos do vinho. "O peixe e o camarão fresco, sabores delicados, que viram delicadíssimos por contraste com os temperos",unem-se com um certo receio com o "camarão seco e o dendê", mas o vinho "toma partido pelos elementos fundamentais do prato, o peixe e o camarão, que ameaçavam ser vendidos pelos temperos tempestuosos" – o azeite de dendê, o leite de côco, o gengibre e a noz-moscada (ANDRADE, 1977, p. 122).
Bem gelado, o vinho abranda a"tempestuosidade do vatapá" e forma um acorde de música nacional, defendida por Janjão. O compositor é o vatapá tempestuoso abrandado pelo vinho, e Sarah Light a salada americana. Os dois pratos e os dois personagens se unem e compõe a cultura brasileira na época dos primeiros modernistas, com todo o interesse e a euforia que a chegada da indústria causou.
Mesmo sabendo que "os modernistas dedicaram carinho especial a tudo que indicasse a presença da civilização industrial: a máquina, a metrópole mecanizada, o cinema, a vida excitante de uma sociedade que liquidava os resquícios patriarcais e adotava rapidamente os novos ritmos da vida contemporânea" (CANDIDO e CASTELLO, 1983), sente-se que no Banquete de Mário de Andrade a convivência não é pacífica.
As discussões acaloradas entre Janjão e Siomara Ponga sobre a música nacional estão mais próximas da batida paulista, servida como aperitivo, do que com o vinho, servido no jantar. A batida lembra bem o fundamento da nossa cultura, explorada em versos por João Cabral de Melo Neto (1998, p. 55) em "Psicanálise do açúcar": "Mas como a cana se cria ainda hoje, / em mãos de barro de gente agricultura, / o barrento da pré-infância (...) o tal fundo mascavo logo aflora / quer inverno ou verão mele o açúcar".
Novamente, a mistura da cultura brasileira, juntando elementos regionais em um só corpo, está presente no texto de Mário de Andrade. Mesmo mascarado pela civilização, o fundamento de uma cultura cedo ou tarde aflora e mostra a sua força.
Janjão, convidado para um jantar, oferecido aos donos da vida para patrocinar o compositor nacional, toma o "cocktail" de Sarah e depois senta-se à mesa e prova o vatapá, temperado pela cozinheira barbadiana. Os dois sabores se misturam e o vinho não consegue juntar os elementos e fala mais alto a nacionalidade do que a necessidade de proteção.
O jantar da cidade de Mentira segue alguns rituais, camuflados pelas discussões entre os personagens: os rituais de preparação, o vestir-se de Sarah Light ao som de música alimentando os ouvidos e o espírito, um dos prazeres da milionária, o preparo dos pratos para o jantar, e a recepção dos convidados.
O ritual da aproximação entre as pessoas tem seu início com a chegada de Siomara Ponga, recebida por Sarah, e a conversa amigável – mas nem tanto – entre as duas. A chegada de Félix de Cima, Janjão e Pastor Fido completam esta primeira parte formal da reunião. Os aperitivos são servidos e, em seguida os convivas são chamados à mesa para o jantar.
A idéia da "higiene da mesa" (BARRETO, 1998, p. 36)- "Imediatamente antes de tomardes assento na vossa mesa, lavai com capricho as vossas mãos" está presente também no Banquete. Janjão chegou com os pés sujos de poeira. Siomara Ponga e Sarah Light percebem, e a dona da casa pede para que o convidado limpe os pés. Ao seguir as instruções, o compositor procura ver se as mãos estão limpas e se ele não havia esquecido de limpar bem as unhas.
O ritual de disposição dos convidados à mesa, supostamente desconhecido por Janjão, é comentado pelo autor: "se entendesse de etiquetas decerto achava graça estar apenas à esquerda da dona da casa. O político merecera a direita, ganhando do outro lado o prêmio da cantora linda". Sarah Light estava nesse momento "toda entregue à profissão de presidir almoços" (ANDRADE, 1977, p. 119).
Lembrando um pouco o Clube Rabelais[3](MENEZES, 1998, p. 31), o texto de Mário de Andrade reúne um político, uma milionária, uma artista, um compositor nacional e um jovem quintanista de direito. O convívio harmonioso entre os personagens, pretendido por Sarah Light é ameaçado pela discordância de idéias e posições entre Félix de Cima, Janjão e Pastor Fido e entre Janjão e Siomara Ponga.
É chegado o momento de servir a mesa e os criados trazem a entrada – um vatapá. Siomara Ponga serviu-se primeiro e espalhou na sala o cheiro sólido do prato, ou, a solidez da nação brasileira em todos os seus fundamentos. Todos ficaram extasiados e nesse momento, o vinho que deveria ser o elo de união entre os convivas, foi substituído pelo cheiro e o sabor do vatapá. Os ingredientes que formam o prato se uniram e silenciaram os presentes, "distribuindo por todos uma amizade sinceríssima, distraindo classes e interesses pessoais" (ANDRADE, 1977, p. 120). "A descoberta de um novo manjar causa mais felicidade ao gênero humano do que a descoberta de uma estrela" (BRILLAT-SAVARIN apud José FERREIRA, 1999, p. 47). Mas, o manjar não agrada a todos. Siomara Ponga sente-se sozinha diante daquele prato. Acostumada a interpretar somente em língua internacional, pensava que aquele vatapá poderia estragar a sua voz. Essa também era a sua idéia quanto as músicas do compositor, ao qual deveria proteger.
A música nacional era difícil e exigia um estudo, todo um trabalho novo de técnica de canto. O alimento da terra não servia à ela, tão escravizada que estava à vida de artista internacional. Sentia-se inferior diante de Janjão, sabia da força da música deste e reconhecia seu valor de homem da terra, sabia das raízes que compunham o corpo cultural representado pelo compositor e um sentimento de inveja a dominava enquanto o compositor expunha suas idéias sobre a composição nacional e a força que ela possui.
A cantora, um produto da civilização industrial, do alimento pasteurizado não suporta a presença daquele convidado que esquece seus interesses em favor da arte e, mesmo sabendo que sairia dali sem a ajuda da qual precisava muito, alimentou-se do vatapá, da cultura nacional e, digeriu o manjar em todos os seus aspectos: o cheiro, a aparência descolorida, o valor nutritivo e o sabor que satisfaz o mais exigente paladar. Nutriu-se dessa mistura e falou tudo o que pensava sobre o governo, sobre a música nacional e a estrangeira, criticou os virtuoses, representados ali por Siomara e sentiu-se feliz. Estava nutrido, alimentado de corpo e espírito, "sentiu um orgulho prodigioso que curou tudo... Mas a virtuose Siomara Ponga sofria" (p. 146).
Janjãoprecisava de ajuda financeira, mas o seu amor pela terra e pela cultura nacional era mais forte que a necessidade. Pastor Fido nutria-se das palavras do compositor e, "naquele momento, apenas naquele momento, o moço Pastor Fido seria capaz de morrer por Janjão" (p. 110). Um momento apenas, porque logo chegou a salada. O prato favorito de Sarah Light. Uma salada americana, fria, tal como Siomara, mulher fria, ciente do seu papel de virtuose.
O novo prato não tinha cheiro, nele faltava um dos elementos que provocam os sentidos, o odor. Um bom gourmet diria que o cheiro que se desprende dos pratos quando estes são servidos provoca uma comoção e se espalha pelo corpo da pessoa, provocando o desejo de comer e um princípio de prazer. Mas a salada tinha presença, aquela que falta no vatapá. Colorida, alimenta a vista ao primeiro olhar.
Janjão, ciente dos perigos daquele prato tão novo e indecifrável, que trazia debaixo do colorido provocante toda a cultura da indústria, sabe que este prato representa o alimento do corpo maquínico, da comida pasteurizada, o prato pronto, o fast food. O calor emanado pelo prato quente dissolve-se diante da frieza da salada e com ela as convicções e a paixão da juventude de Pastor Fido pelo músico some no ar também.
Janjão ainda tinha esperanças de que o rapaz soubesse separar somente o que servisse de alimento e nutrição para seu corpo, que absorvesse o suco de pedregulhos mas esquecesse o sorvete de creme. Confiava o compositor que o rapaz pudesse nutrir-se somente da música brasileira, formando um corpo único, na junção das composições regionais, como um só acorde perfeito e rico, protéico e energético. Acreditava que Pastor Fido pudesse entender a formação da música brasileira em todos os seus elementos fundadores, na herança dos compositores estrangeiros que devem contribuir com a técnica para trabalhar com os elementos da terra e formar um corpo único, tal como o vatapá "cheio, nutrido e convicto, que se percebia nele a paciência das enormes tradições sedimentadas, a malícia das experiências sensuais, os caminhos percorridos pelo sacrifício de centenas de gerações" (p. 159).
Esperança vã. A salada com todas as suas cores, Siomara com todas as suas convicções de virtuose, era "bonita e chamariz". "Tinha mil cores, com mentira e tudo... o amarelo" embora pouco, salpicava o conjunto feito "gritos metálicos" (p. 159). A presença do metal, do corpo industrializado era a própria salada adaptada por Sarah Light para completar a alimentação do espírito.
Janjão sentiu-se só. Félix de Cima antes mesmo de provar já havia engolido tudo, Siomara Ponga, mesmo sabendo que por baixo de tão variadas cores poderia estar um produto perigoso, aderia ao prato, aliás, "era a salada mais encantatória do mundo" (p. 161). Pastor Fido sucumbira ao encanto do prato e mesmo antes de qualquer outro servia-se de tudo. Mesmo o susto provocado pelo primeiro sabor não o fizera desistir de comer. Cada prova sabia a sentimentos vagos de traição, de abandono das tradições, do corpo cultural, dos fundamentos da nação brasileira. Mas, era impossível resistir àquele sabor indecifrável. Também a civilização primeira não consegue resistir aos primeiros impulsos das inovações tecnológicas. A salada, prato ilusório, quando provada conseguia fazer com que as pessoas esquecessem seus elementos fundacionais. O vatapá, prato dos fortes de espírito e alimento do povo brasileiro, perde sua força vital e se desterritorializa na presença da salada, da indústria, do prato pronto, da música enlatada.
Ao começar com o título, O Banquete, Mário de Andrade apresenta duas das atribuições da boca, o de ingerir os alimentos e o de falar. A reunião de personagens representantes de várias classes, mostra o momento de ruptura com a tradição patriarcal e a apropriação da cultura importada, da civilização industrial, da politização que desterritorializa a cultura primeira. Os pratos servidos no jantar também são parte desta representação. O vatapá e a batida paulista, representam a o corpo nacional, a salada de Sarah Light, a indústria.
No texto, tanto a culinária como parte da história de fundação da nação, quanto as idéias de música, arte, estética, crítica e poesia nacional se misturam e formam um outro corpo cultural traduzido pelas palavras do autor. O Banquete deixa de ser uma reunião coletiva, regada a pratos especiais para ser um espaço de reflexão sobre o momento cultural vivido no Brasil na década de 40, fruto das primeiras raízes plantadas pelo modernismo. O vatapá, prato dos fortes de espírito perde sua força diante do tumulto da salada americana oferecida por Sarah e torna-se um vatapá-light. Ainda nutre mas com ele são ingeridos elementos estranhos de procedência e fabricação duvidosa. A salada domina, atenua a força do vatapá mesmo sendo "incapaz do tradicionalismo sacral dum vatapá de negros, ou de cuscuz paulista vindo através de vinte séculos árabes. Era um prato inteiramente novo, incapaz de caráter, tirando o seu caráter abusivo, berrantemente superficial, escandalosamente dominador, justo da sua sabedoria de não ter caráter nenhum" (p. 162).
ANDRADE, Mário de. O banquete. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
BARRETO, Luís P. A higiene da mesa. Travessia – revista de literatura. Florianópolis: Editora da UFSC, 1998. p. 36-37.
CANDIDO, Antonio, CASTELLO, José A. Presença da literatura brasileira. 9. ed., São Paulo: DIFEL, 1983.
CULINÁRIA de texturas: nutrir e devorar. Travessia – revista de literatura. Florianópolis: Editora da UFSC, 1998. p. 7-10.
FERREIRA, Aurélio B. de H.. Minidicionário da Língua Portuguesa. 1. ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
FERREIRA, José G. R. Metafísica de garfo e faca. Revista Cult. São Paulo, no 29, Dez/1999. p. 46-49.
MELO Neto, João C. Psicanálise do açúcar. Travessia – revista de literatura. Florianópolis: Editora da UFSC, 1998. p. 55.
MENEZES, Rodrigo O. de L. Sociedades cariocas para conversar e comer. Travessia – revista de literatura. Florianópolis: Editora da UFSC, 1998. p. 31-35.
RAMOS, Artur. O banquete. Travessia – revista de literatura. Florianópolis: Editora da UFSC, 1998. p. 43-45.
[1] In:"O Fotógrafo Mário de Andrade"deAmarildo CARNICEL. Campinas. São Paulo, Editora da UNICAMP. 1993. p. 22.
[2] RAMOS, 1988, apud Trecho de "Notas sobre a culinária negro-brasileira". Reproduzido de Aculturação negra no Brasil. Brasiliana, vol. 224. São Paulo, 1942. (RAMOS, 1998, p. 43).
[3] Clube Carioca fundado em 1892-1893, sem sede própria que tinha como objetivo reunir homens de letras e artistas para uma hora de agradável convívio. (MENEZES, 1998, p. 31).